A greve na Transwolff terminou na tarde de 19 de outubro de 2026, e a operação na zona sul de São Paulo começou a ser retomada gradualmente. Segundo a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans, a normalização teve início às 13h50.
Os funcionários cruzaram os braços na madrugada e apontaram atrasos nos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e em outros direitos trabalhistas. A paralisação ocorreu enquanto a empresa, sob intervenção municipal desde 9 de abril de 2024, enfrenta indefinições sobre a continuidade de sua operação.
O movimento afetou o lote D10, identificado como azul-claro, que atende bairros da zona sul. Mesmo após o encerramento da greve, o Sistema Paese permaneceu ativo para 37 linhas, segundo a SPTrans.

A crise ocorre após a desistência da Sancetur de assumir as linhas, em janeiro de 2026, e enquanto a Prefeitura ainda não definiu a data de uma nova licitação. A cobertura aborda a retomada do serviço, as reivindicações dos trabalhadores e o impasse administrativo em torno dos lotes D10 e D11.
Greve termina, mas Paese segue em 37 linhas da zona sul
O encerramento da paralisação foi acertado em reunião com representantes da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e da SPTrans. O atendimento emergencial do Sistema Paese continuou em linhas do lote D10 enquanto a operação era reorganizada.
Entre os trajetos atendidos estavam a linha 6016/10, entre Jardim Noronha e Terminal Grajaú, e a 6027/10, entre Jardim Graúna e Terminal Santo Amaro. A relação divulgada pela SPTrans também incluía serviços que ligam bairros ao Terminal Varginha e ao Terminal Parelheiros.
Havia ainda trajetos como a 6L11/10, entre Ilha do Bororé e Terminal Grajaú, e a 6020-10, entre Chácara Bosque do Sol e Parelheiros. A lista abrangia regiões como Grajaú e Parelheiros, além de conexões com terminais e estações da zona sul.
Reivindicações trabalhistas em meio à intervenção municipal
Os trabalhadores que participaram da greve na Transwolff cobraram a regularização de obrigações trabalhistas e relataram insegurança sobre a continuidade dos serviços e dos empregos. A paralisação ocorreu durante a gestão municipal da operação, que se mantém sob intervenção desde abril de 2024.
Em nota, a Prefeitura afirmou que salários e benefícios estavam sendo pagos em dia e que os direitos trabalhistas dos empregados eram mantidos. A administração informou que os depósitos de Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) eram feitos integralmente pela SPTrans, em juízo, à espera de deliberação judicial.
A Prefeitura também declarou que o plano de saúde estava em processo de licitação para contratação de um fornecedor. Segundo a nota, os trabalhadores que deixaram de atuar durante o movimento teriam o dia descontado do pagamento.
O Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (SINDMOTORISTAS) afirmou não ter recebido comunicação oficial sobre uma possível paralisação. O sindicato defendeu que reivindicações e condições de trabalho sejam tratadas por canais legítimos de negociação e declarou compromisso com os direitos da categoria.
Origem da Transwolff e investigação da Operação Fim da Linha
A origem da Transwolff está ligada à Cooperativa dos Trabalhadores Autônomos em Transporte de São Paulo (Cooperpam), formada por operadores que atuavam no transporte coletivo da capital. A cooperativa surgiu durante a reorganização do transporte alternativo, quando operadores de vans e micro-ônibus passaram a integrar o sistema regulamentado pela Prefeitura.
A partir de 2013, a estrutura foi transformada em empresa, que cresceu até se tornar a terceira maior operadora municipal, com frota de referência de 1.206 ônibus e 111 linhas na zona sul. A mudança não encerrou a participação de antigos cooperados: levantamentos citados na referência apontaram cerca de 700 proprietários ligados à Cooperpam, responsáveis por aproximadamente 800 veículos.
Em 9 de abril de 2024, o Ministério Público de São Paulo, com apoio da Receita Federal e das polícias Civil e Militar, deflagrou a Operação Fim da Linha, que investigou a Transwolff e a UpBus. Segundo o Ministério Público, estruturas das empresas teriam sido usadas para movimentar e lavar recursos atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Entre os investigados estavam Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, e Robson Flares Lopes Pontes, apontados como integrantes da direção da Transwolff. Ambos foram presos na operação e depois obtiveram decisões judiciais que lhes permitiram responder ao processo em liberdade; as acusações não equivalem a condenações definitivas. No dia da operação, a Prefeitura afastou as antigas administrações e colocou os serviços sob intervenção municipal, por meio da SPTrans.
Caducidade dos contratos e desistência da Sancetur
Uma auditoria contratada pela administração municipal apontou problemas que embasaram medidas contra a concessionária. Em 4 de dezembro de 2025, a Prefeitura decretou a caducidade dos contratos da Transwolff, decisão que também passou a ser discutida na Justiça.
A gestão municipal pretendia transferir as linhas para a Sancetur, empresa da família Chedid. Em 26 de janeiro de 2026, anunciou um contrato emergencial de 12 meses, com previsão de início da operação em 1º de fevereiro, e informou que empregos, salários, benefícios e compromissos com fornecedores seriam preservados.
Dois dias depois, em 28 de janeiro de 2026, a Sancetur comunicou que não tinha condições de assumir integralmente os lotes D10 e D11 e desistiu do contrato. Com isso, a operação permaneceu sob responsabilidade municipal, enquanto a estrutura reunia relações de trabalho e vínculos com proprietários de ônibus oriundos da antiga cooperativa.
Ataques a ônibus e investigação sobre disputas contratuais
Entre junho e agosto de 2025, uma onda de ataques atingiu mais de 1,5 mil ônibus no estado de São Paulo, principalmente na capital e na região metropolitana. As ocorrências incluíram pedras, bolinhas de metal e outros objetos lançados contra veículos, com passageiros e trabalhadores feridos.
A Polícia Civil investigou se as depredações poderiam estar relacionadas a disputas pelos contratos de empresas que seriam retiradas do sistema municipal. A transferência das operações da Transwolff para a Sancetur foi considerada uma das linhas de apuração, sem que isso estabelecesse responsabilidade judicial definitiva de dirigentes pelas ocorrências.
Um despacho municipal de 12 de junho de 2025, assinado pelo secretário de Mobilidade Urbana e Transporte, Celso Caldeira, determinava o prosseguimento dos procedimentos para transferir os contratos das empresas investigadas. Levantamentos da SPTrans e do sindicato patronal SPUrbanuss indicavam que, após uma média de até cinco depredações diárias, os registros chegaram a cerca de 40 naquela noite.
Em dezembro de 2025, a Secretaria de Segurança Pública informou que o inquérito permanecia em andamento e que pelo menos 20 pessoas haviam sido detidas durante as apurações. A investigação considerava disputas econômicas e contratuais entre possíveis explicações para os ataques, sem afirmar que todos tivessem uma única causa ou autoria.
Nova licitação dos lotes D10 e D11 continua sem data definida
Depois da desistência da Sancetur, a Prefeitura encaminhou ao Tribunal de Contas do Município (TCM), em 15 de junho de 2026, uma proposta de edital para licitar novamente os lotes D10 e D11. O documento foi enviado para análise prévia do órgão, mas a concorrência ainda não tem data publicamente definida.
Em entrevista de 21 de junho de 2026, o prefeito Ricardo Nunes afirmou que a administração pretendia dividir os serviços em dois lotes, cada um com cerca de 350 a 400 ônibus. O plano apresentado também previa reduzir a frota vinculada à operação, que tinha referência de aproximadamente 1.200 veículos.
Na mesma entrevista, o secretário Celso Caldeira disse que estudos preliminares apontavam a possibilidade de cancelar ou cortar cerca de 20% das linhas, embora a estimativa ainda não fosse definitiva. A Prefeitura afirmou que a reorganização buscaria eliminar sobreposições e que a redução dos veículos ligados aos lotes não deveria diminuir proporcionalmente o atendimento; Nunes declarou que a gestão não reduziria a oferta de ônibus à população.
Enquanto a licitação não avança, a administração municipal mantém contratações para sustentar as atividades dos lotes. Em 26 de agosto de 2026, foram relatados novos procedimentos de contratação; em 31 de agosto, a SPTrans esclareceu a contratação de assistência médica para 3.641 trabalhadores, e em 6 de outubro foi noticiado um contrato de R$ 1,33 milhão para vigilância patrimonial, com prazo de 12 meses.


