Enfermeira revela a dura rotina de receber mulheres espancadas em hospital de São Paulo

O dia a dia da equipe de enfermagem

Diariamente, por volta das 7h45, Michelle Sousa, supervisora de enfermagem no Hospital Geral do Grajaú, inicia suas atividades. Este hospital, localizado em São Paulo e parte do Instituto de Responsabilidade Social do Sírio-Libanês (IRSSL), tem como responsabilidade atender vítimas de diversas condições, incluindo a violência doméstica. A primeira questão que Michelle levanta com sua equipe é se há algum registro de incidentes relacionados à violência observados até aquele momento.

Essa conferência é de suma importância, uma vez que a frequência de chegadas de mulheres agredidas é uma triste realidade. A quantidade de casos pode variar drasticamente, com a possibilidade de se registrar de um a quatro atendimentos por semana, ou até mesmo com um padrão que se repetiu em quinzenas. Michelle nota que esses números costumam aumentar em períodos específicos, como finais de semana, feriados, e especialmente durante o fim de ano, quando a tensão nas famílias em geral é maior.

É comum receber vítimas de violência

Durante o período entre o ano anterior e agosto de 2026, a média de atendimentos para casos de violência contra a mulher no Hospital Geral do Grajaú foi de cerca de três por semana, totalizando 269 atendimento neste intervalo. Esses dados são alarmantes e ajudam a ressaltar a gravidade da violência contra a mulher, confirmada por um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que calcula que, diariamente, cerca de 15 mulheres são internadas em hospitais brasileiros devido a agressões em suas residências.

receber mulheres espancadas

Quando uma paciente é identificada como vítima de violência, o cenário que a equipe enfrenta é impactante. Michelle compartilha que com frequência as mulheres chegam com o rosto ferido, apresentando múltiplos traumas e lesões na região da cabeça. As circunstâncias que cercam as lesões frequentemente podem ser confundidas com acidentes, complicando o diagnóstico inicial.

Por exemplo, lesões resultadas de espancamentos podem ser confundidas com fraturas típicas de acidentes de trânsito. Esse fator gera sentimentos de vergonha e um profundo abalo emocional nas vítimas, o que é difícil para a equipe de saúde lidar. Além das consequências físicas, o impacto emocional desses episódios é significativo, exigindo uma atenção delicada e cuidadosa da equipe de profissionais de saúde.

Identificando sinais de agressão

As pacientes chegam ao hospital de múltiplas formas: algumas vêm sozinhas, outras são acompanhadas por familiares ou, em situações mais críticas, pelo próprio agressor. Elas podem entrar pelo pronto-atendimento, serem trazidas por ambulâncias ou mesmo por seus próprios veículos. É comum também atender mulheres grávidas que foram agredidas, exigindo um cuidado ainda mais rigoroso.

O impacto emocional nas vítimas

A média de atendimentos no Hospital do Grajaú reflete uma triste realidade, e os profissionais de saúde estão sempre à procura de maneiras eficazes de acolher e apoiar essas mulheres. Muitas vezes, o cuidado se estende além da simples recuperação de lesões, mas também engloba o apoio emocional. A equipe tem consciência de que acolher essas vítimas é fundamental para que elas se sintam seguras no ambiente hospitalar, um espaço que deveria proporcionar cura e conforto.

Protocolos de atendimento em casos de violência

Como o Hospital Geral do Grajaú é uma unidade de referência, os casos que chegam até a equipe geralmente apresentaram gravidade elevada. De acordo com Bianca Miranda, diretora médica do IRSSL, todos os serviços de saúde, incluindo as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), devem seguir um protocolo específico ao receber mulheres vítimas de agressão. Este protocolo inicia-se na triagem, que é a classificação do risco, geralmente feita por um profissional da enfermagem.



Nessa fase inicial, a mulher tem a opção de compartilhar informações sobre a violência vivenciada ou simplesmente relatar sintomas físicos. Profissionais capacitados focam em detectar sinais sutis de agressão, como uma postura defensiva, demonstrações de medo, ansiedade, choro ou até mesmo tremores e reações emocionais exacerbadas.

A importância de um acolhimento humanizado

O olhar atento para queixas comuns, como dores de cabeça ou desconforto no corpo sem uma explicação aparente, além de lesões que não condizem com a justificativa apresentada pela paciente, são elementos que acendem uma luz de alerta na equipe de saúde. Um exemplo recente reflete essa realidade: uma mulher foi trazida ao pronto-socorro após um alegado acidente de carro, acompanhada por seu marido, que tentava intervir nas respostas dela.

Inicialmente, a mulher disse que as lesões eram resultado do acidente. No entanto, à medida que as avaliações prosseguiram, sua narrativa começou a apresentar contradições, levando a equipe a suspeitar da veracidade de sua história. Eventualmente, a paciente confessou que as lesões foram causadas por um altercado que ocorreu no carro, precipitando o acidente.

Como funciona a triagem no hospital

A presença de um acompanhante, com frequência do sexo masculino, que tenta responder por ela, também é um fator que levanta suspeitas. Visitas frequentes aos serviços de saúde, apresentando queixas vagas e sem especificidade, são outros sinais que indicam a necessidade de investigação. Quando a situação da violência é confirmada ou há suspeitas suficientes, à paciente é rapidamente atribuída uma pulseira de cor diferente.

Esse símbolo assegura prioridade no atendimento e uma realização em ambiente reservado. O acompanhante não é informado sobre o significado dessa pulseira, evitando que ele perceba a necessidade de atenção distinta à situação dela. Deste modo, os profissionais de saúde conseguem oferecer um atendimento mais humanizado, com a intenção de evitar a revitimização.

Direitos das mulheres vítimas de violência

É crucial que, durante o atendimento, os profissionais respeitem o tempo e a condição emocional da vítima. A mulher tem a liberdade de decidir se prefere permanecer sozinha ou com alguém, podendo até mesmo restringir a entrada do agressor no hospital. Essa autonomia é vital para o bem-estar dela e o processo de recuperação. Todos os detalhes e características das lesões recebidas são cuidadosamente anotados no prontuário eletrônico, visando criar um dossiê clínico bem estruturado. Este documento poderá servir como suporte em futuras ações legais, como a elaboração de um boletim de ocorrência, garantindo que o relato da vítima tenha um respaldo técnico e médico.

O papel do serviço social e psicologia

Depois do tratamento dos ferimentos, a mulher é assistida pelos profissionais de serviço social e psicologia. O trabalho do serviço social é orientar a paciente sobre seus direitos e possibilidades legais. Essa orientação é oferecida de maneira que a decisão final permaneça sempre com a vítima, sem qualquer tipo de imposição ou julgamento. Essa dinâmica é crucial para que a paciente se sinta empoderada em suas escolhas.

O hospital também desempenha um papel importante na coordenação de cuidados para assegurar uma alta segura para a paciente, que pode incluir a recomendação para acompanhamento contínuo nas UBSs. Em casos de violência que envolvam abuso sexual, as vítimas são encaminhadas para serviços especializados para garantir que recebam a assistência necessária.

Construindo um espaço seguro para as pacientes

Para aquelas que não têm a possibilidade de retornar para casa ou que sentem insegurança para fazê-lo, a rede de apoio apresenta informações sobre abrigos disponíveis. É essencial que as mulheres saibam que existem locais seguros onde podem encontrar o apoio necessário, seja físico ou emocional, para que possam romper com o ciclo de violência e buscar novas oportunidades de vida.

A experiência da equipe do Hospital Geral do Grajaú é voltada para a criação de um vínculo de confiança com as pacientes. O objetivo é para que elas vejam a unidade não apenas como um lugar de tratamento de lesões, mas como um verdadeiro suporte. A expectativa é que as mulheres se sintam confortáveis e acolhidas no hospital. Estamos aqui para oferecer esse suporte e acolhimento, finaliza a supervisora Michelle Sousa.



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